Teoria:
A minha relação com telemóveis sempre foi algo fria. Não lhes acho grande piada, nem tão pouco vivo obcecada pelo último modelo que saiu e pelo qual todos se babam. Ao contrário da opinião geral, eu acho que a chegada destes "bichos" à nossa realidade não permitiu a aproximação das pessoas; contribuiu, isso sim, para que se afastassem cada vez mais: trouxe-nos a frieza das mensagens escritas e das emoções transmitidas por caracteres combinados e smileys despersonalizados... A voz, essa, foi relegada para planos muito secundários...
A verdade é que hoje é impensável viver sem telemóvel. Mas está-se a chegar a um exagero tal que roça o ridículo. É mais do que comum estar num sítio fechado e ver todas (todas!) as pessoas à nossa volta a telefonar, a atender, a escrever mensagens ou, simplesmente, a olhar para o aparelho. Mais ridículo se torna apercebermo-nos que, nos dias que correm, um casal num restaurante que não comunica entre si porque está demasiado ocupado ao telemóvel a tratar de assuntos "importantes" e, supostamente, inadiáveis, se tornou numa vulgaridade...
Não sou, de forma alguma, avessa à modernidade e à evolução das tecnologias. Vivo rodeada delas e são parte da minha qualidade de vida e felicidade. Acho, sim, que se chegou a um ponto sem retorno e que esta espiral de consumismo desenfreado dificilmente encontrará o seu fim...
Prática:
Muitas vezes desligo o telemóvel simplesmente porque não me apetece estar comunicável - seja lá por estar muito feliz e não querer tomar conhecimento de alguma notícia que me estrague esse estado de espírito, seja por estar "na mó de baixo" e não ter 'estofo' para arcar com novidades desagradáveis. Reconheço que possa ser interpretado como uma acto de alguma imaturidade, mas faço-o por pura e simples necessidade de paz, de silêncio nos meus pensamentos.
Admito que a sensação de ansiedade me assola sempre que me esqueço do 'bichinho de estimação' em casa. Mas simplesmente por motivos profissionais. Esses, sim, preocupam-me: a ausência de resposta poderá ser mal interpretada e conduzir a mal entendidos. Com os amigos e colegas também se corre esse risco, mas o problema é facilmente ultrapassável. Já tive discussões por causa de telemóveis desligados - esses, sim, actos que, vistos à distância, me parecem francamente ridículos.
Ontem recebi duas chamadas enquanto estava a trabalhar e não as pude atender. O número era-me desconhecido e isso foi o suficiente para me inquietar e me deixar num estado de ansiedade tal, que não parei de pensar nas possíveis origens daqueles telefonemas. Acredito que o fiz por me encontrar numa fase de alguma insegurança relativamente a determinadas alíneas da minha vida. Risquei todas as hipóteses do meu pensamento e dormi sobre o assunto. Esquecer... foi o melhor...
Tenho um telemóvel e dou-me bem com ele. A nossa relação não é muito próxima, é verdade; simplesmente não o utilizo como substituto de um relógio, de uma calculadora ou de uma agenda. Mas uso-o para falar. Está bem assim, não está?