Todos temos tendência a considerar as pessoas deficientes como boas pessoas. Não sei explicar porquê, mas parece-me unânime. Se alguém se referir a um aspecto negativo da personalidade de um deficiente, é visto como insensível, limitado, preconceituoso e desrespeitador. Não concordo minimamente com estes (falsos) pressupostos, porque, penso, somos todos feitos da mesma matéria, logo, todos temos defeitos e qualidades. O reconhecimento da diferença é uma característica humana, e é isso que nos torna únicos e iguais.
Correndo o risco de ser mal interpretada, evito fazer qualquer tipo de considerações sobre este assunto em frente da maior parte das pessoas. Não propriamente porque tema as suas reacções, mas sobretudo porque sei que me farão sentir aquilo que, por natureza, não sou - preconceituosa. Hoje, não resisto. Será pôr o dedo na ferida, mas... Caiam-me críticas em cima, apontem-me o dedo, e o que mais... mas não me apetece calar.
Na pausa de almoço, enquanto esperava pelo meu prato, reparo que a meu lado se tinha sentado uma mulher (com os seus 50 / 60 anos) que manifestava um comportamento algo diferente. A diferença - vim a notar pouco depois - era a mudez. Procurava fazer-se entender por gestos e começou a "falar" com uma velhota sentada ali perto. Desde logo, achei estranho a tal velhota rir-se tanto, quando não percebia nada de linguagem gestual. Depressa cheguei à conclusão que a mulher muda estava a gozar com as pessoas que estavam sentadas àquele balcão, imitando as suas poses, gestos e acções. Chegava ao ponto de apontar para os "alvos" da chacota - para que a velhota percebesse de quem se tratava - e de escrever num papel alguma coisa que a sua fiel "espectadora" não estivesse a entender por gestos! As pessoas sentiam-se incomodadas, mas, assumindo a tal postura de "tem uma deficiência, não se pode julgar as suas atitudes", ignoravam-na e procuravam olhar para o outro lado. Quando me apercebi que falava de mim, senti-me revoltada, mas fui incapaz de agir. Não sei porquê, parecia que o subconsciente me dizia para não o fazer. Saí do estabelecimento chateada por não ter reagido. Logo eu... Procurei esquecer. Ainda agora me arrependo de não lhe ter dito nada...