Hoje deu-me cá uma nostalgia... tenho de a partilhar.
Para mim, o dia da criança é especial. Sempre foi. Talvez por ter sido uma criança absolutamente feliz. Talvez por adorar crianças, por lidar com elas, por desejar ser uma mãe exemplar, por me perder sempre que as vejo num berço ou num carrinho no seu sono mais que inocente e despreocupado. Talvez por me sentir impelida a reagir contra as maldades, as atrocidades, as injustiças, as fomes, as guerras que insistem em privar o sorriso inocente de umas crianças menos iguais que todas as outras. Talvez por ver nos seus olhos brilhantes a pureza, a simplicidade, a justiça e tudo o mais que a idade adulta rouba à inocência da (pouca) idade.
Felizmente, fui uma criança muito feliz. Perante uma reportagem da RTP, ouvida e vista de soslaio por entre conversas de jantar, dei por mim a ver o filme dos momentos mais felizes da minha vida - passados na infância - mesmo perante os meus olhos. Estava a viajar no tempo. De repente, vi tudo com clareza - os jogos do lenço, da "Mãezinha, dá licença?", do saltar à volta dos quadrados do chão, do saltar à corda, do elástico, dos piões, dos berlindes, dos ió-iós, dos cromos e das cadernetas Panini, dos Marretas, da Rua Sésamo, do Tom Sawyer, da Ana dos cabelos ruivos, das apanhadas, do Traga-Bolas, do Jogo da Glória, do Monopoly (com regras adulteradas, em função da inocência de não perceber o que eram hipotecas...), do Pictionary, dos jogos de cartas - sobretudo da Pesca - , das conversas cheias de filosofias da idade, das quedas, dos choros, das alegrias, das festas de aniversário, das noites de Verão passadas no pátio a falar, dos animais que recolhíamos, do ir bater a todas as portas para arranjar donos para as crias das cadelas abandonadas que assumíamos como nossas e que viam em nós a melhor família que podiam ter, dos cuidados, das partilhas, das idas à praia e à piscina (mesmo não sabendo nadar), dos passeios até ao Mosteiro com os vizinhos, das cantorias, dos gritos, dos risinhos - da felicidade, no fundo.
Hoje viajei no tempo. E sorri por ter visto diante de mim uma infância inocente e rica e por ter na memória algo que nada nem ninguém conseguirá apagar. Felizmente, continuo a sentir-me a mesma crinça risonha e feliz, apesar de todos estes anos passados, de todas as evoluções e de toda a mudança do rumo da história. E é bom, muito bom.
"Venha o que vier, nunca será maior que a minha alma" - Fernando Pessoa