Reaprender
Comentava há pouco com um amigo a minha desilusão. Desilusão por sentir que vivo num estado de apatia total, em que as pessoas deixaram de saber sorrir e comunicar espontaneamente, em que se socializa tomando um cafézito aqui ou ali, sem se ter interesse na outra pessoa à nossa frente. Os sorrisos passaram a ser mais estudados que as teorias da felicidade e todos parecem usá-los como bengala aos silêncios que se geram sem razão aparente. A comunicação é constantemente quebrada por motivações estúpidas, os temas são minados à partida, os desvios de olhar passaram a código Morse e ganharam o estatuto de "não estou para falar contigo"...
Há algum tempo que sinto esta frieza. E talvez sofra mais do que muitas pessoas com essa atitude, simplesmente porque ela não faz parte de mim. Nunca precisei de aprender a sorrir. Faço-o quando estou feliz e quando o meu cérebro assim o entende. Não o uso para quebrar silêncios ou evitar conversas pouco interessantes. Não sei ironizar com sorrisos.
Surge depois a comunicação, ou a falta dela. E a frustração constante de passarmos de personagem de um diálogo a protagonista de um monólogo. Não há vontade de falar, de partilhar, de rir. O silêncio e a apatia tornaram-se os principais resguardos de uma comunicação que se deseja evitável. E - mérito para quem adopta a estratégia! - funciona. Só que o que fica não é mais que nada. Um vazio.
Não me dou bem com a solidão. Para estar feliz, preciso de pessoas, de conversas, de risos e muitos sorrisos. Não gosto de silêncios pesados, nem de ironias disfarçadas. Gosto de me sentir bem onde estou e de saber que os outros pensam o mesmo. Porque onde eu quero estar é onde as pessoas que me fazem sorrir também estão.

